quarta-feira, 9 de março de 2011

Frases

« Resolveu começar pelo Jardim Botânico, donde já tirara alguns esboços, e escolheu para assunto o pequeno lago onde o Outono espalhava folhas vermelhas e amarelas. Os jardineiros sonhavam em carregar aquelas folhas, mas as suas vassouras não eram bastante longas para as atingir.
Quanto ao resto do jardim, eles varriam-no sempre, apanhavam todas as manhãs as folhas caídas durante as ventanias da noite e reuniam-nas em grandes montes, donde se elevava, à medida que um fogo lento as consumia, um fumo doce e acre, símbolo do Outono, como o cuco é o símbolo da Primavera e o cheiro das tílias é o símbolo do Verão. A alma meticulosa dos jardineiros não podia suportar os grandes desenhos de ouro e ferrugem sobre o verde dos relvados. Os caminhos ensaibrados deviam alongar-se impolutos, ordenados, metódicos, sem traço de realidades vivas, nem daquela lenta e bela morte que lança por terra a beleza do Verão, a glória fanada donde o desenrolar do eterno ciclo fará rebentar a louca Primavera.
E vigiavam cada folha, desde o momento em que, após um frémito de adeus, ela caía do ramo e lentamente volteava no ar. Mas no lago as folhas flutuavam em paz, cheias de sol, e as suas cores louvavam o céu.»

In GALSWORTHY, John – A Família Forsyte. Trad. Rachel de Queiroz. Lisboa: Livros do Brasil, [s.d.]. (Dois Mundos; 108). Título original: The Forsyte Saga. Vol. I. 3.ª parte, cap. III, p. 285-286.

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